Agência reguladora europeia aprova medicamento órfão para o tratamento de doença genética rara de pele

Agência reguladora europeia aprova medicamento órfão para o tratamento de doença genética rara de pele

Um produto de bioengenharia de tecidos baseado em células-tronco de pacientes que foram corrigidas usando edição genética foi designado pela Agência Europeia de Medicamentos (EMA) como medicamento órfão para o tratamento de Epidermólise Bolhosa. O produto foi desenvolvido por um grupo de pesquisadores espanhóis que, com a designação recebida da agência reguladora, recebeu autorização especial para comercialização exclusiva por 10 anos.

 

Como vimos no post anterior, medicamentos órfãos são produtos médicos destinados ao tratamento de doenças raras e podem representar uma esperança para a melhoria da qualidade de vida de muitos pacientes. Recentemente, um produto de bioengenharia de tecidos foi designado pela EMA como medicamento órfão. Trata-se de um produto baseado em células-tronco de pacientes que foram corrigidas usando edição genética para o tratamento de Epidermólise Bolhosa (EB).

A EB é uma doença genética e hereditária rara, que provoca a formação de bolhas na pele por conta de mínimos atritos ou traumas e se manifesta já no nascimento. As crianças com EB são conhecidas como “Crianças Borboletas”, porque a pele se assemelha às asas de uma borboleta devido à fragilidade provocada pela alteração nas proteínas responsáveis pela união das camadas da pele (leia mais sobre esta doença no portal do Ministério da Saúde).

O tipo distrófico da EB é uma das versões mais graves da doença. São dois os tipos de EB distrófica, categorizados de acordo com a alteração genética e a forma de transmissão dos pais para o filho:

Epidermólise bolhosa distrófica recessiva (EBDR): tipo mais grave, transmitido quando ambos os pais são portadores do gene;

Epidermólise bolhosa distrófica dominante (EBDD): apresenta quadro mais leve e, para ser transmitida, basta que apenas um dos pais seja portador do gene defeituoso.

Um tratamento para EBDR à base de células-tronco autólogas foi desenvolvido por uma equipe de pesquisadores espanhóis no CIBERER (Centro de Investigación Biomédica en Red de Enfermedades Raras), sob supervisão do Dr. Fernando Larcher.

Sabe-se que a EB é causada por mutações genéticas, dentre elas uma no gene COL7A1, que codifica o colágeno 7, uma proteína essencial para a união entre a epiderme e a derme. Na Espanha, existe uma alta prevalência de uma mutação localizada no exon 80 desse gene (presente em aproximadamente 50% dos pacientes espanhóis), o que justifica o desenvolvimento de uma terapia precisamente direcionada a essa região do gene (veja neste outro post uma abordagem terapêutica para EB focada em outro gene também associado à doença).

Os pesquisadores utilizaram a ferramenta de edição de genes CRISPR/Cas9 para eliminar com segurança e precisão de células-tronco obtidas da pele dos pacientes, o exon 80 do gene COL7A1. Lançando mão de uma abordagem de bioengenharia de tecidos, a equipe semeou as células editadas em um suporte à base de fibrina e obteve-se uma “pele artificial”. A nova tecnologia mostrou ser capaz de regenerar tecidos completamente normais em um modelo pré-clínico confiável da doença (estudos com camundongos) (confira aqui o estudo, publicado pelos autores no ano passado na revista Molecular Therapy).

Até a realização deste estudo, a ferramenta molecular CRISPR/Cas9 não possuía os níveis de eficiência necessários para aplicações clínicas realistas usando células-tronco adultas. Portanto, essas estratégias não poderiam competir com os métodos convencionais, que contam com a edição de genes usando vetores virais. Porém, segundo Larcher, este estudo mostrou que a nova abordagem não-viral de edição de genes desenvolvida foi ainda mais eficaz do que o método convencional para a EBDR. Além de sua eficácia, a estratégia mostrou-se segura devido à ausência de efeitos indesejáveis no restante do genoma do paciente.

Com isso, a CIBERER já desenvolveu 10 medicamentos órfãos que foram designados pela Agência Europeia de Medicamentos (EMA), quatro dos quais também foram designados pela agência americana (FDA). A designação da EMA como medicamento órfão tem vantagens, como receber autorização comercial por 10 anos, período no qual produtos similares não podem ser comercializados, e isenção de pagamento pela designação. Além disso, as entidades que desenvolvem medicamentos órfãos têm acesso a subsídios e programas de financiamentos específicos da União Europeia.

 

Referências

Ministério da Saúde – O que é Epidermólise Bolhosa: https://saude.gov.br/saude-de-a-z/epidermolise-bolhosa

 

DEBRA Brasil (Associação Nacional de Epidermólise Bolhosa): http://debrabrasil.com.br/

 

Vuelo Pharma – O que é epidermólise bolhosa distrófica?: https://www.vuelopharma.com/eb-distrofica/

 

Tissue bioengineering product designated as orphan drug for butterfly skin (07/05/2020): https://medicalxpress.com/news/2020-05-tissue-bioengineering-product-orphan-drug.html

 

Gene editing for recessive dystrophic epidermolysis bullosa: A little bit closer to clinical applications (08/04/2019): https://medicalxpress.com/news/2019-04-gene-recessive-dystrophic-epidermolysis-bullosa.html

 

Bonafont, J. et al. Clinically relevant correction of recessive dystrophic epidermolysis bullosa by dual sgRNA CRISPR/Cas9-mediated gene editing. Molecular Therapy 27:5 (2019) 986-998.

 

Lee, J. et al. Recent advances in genome editing of stem cells for drug discovery and therapeutic application. Pharmacology & Therapeutics 209 (2020) 107501.

 

 


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