Considerações éticas sobre pesquisas com células-tronco para gerar organoides

Considerações éticas sobre pesquisas com células-tronco para gerar organoides

Organoides gerados a partir de células-tronco podem significar um avanço sem precedentes na medicina, mas quais as preocupações éticas relacionadas à essa linha de pesquisa?

Nós já falamos aqui algumas vezes sobre organoides, estruturas celulares em 3D geradas a partir de células-tronco e que simulam algumas características de órgãos humanos. Essas estruturas são geradas a partir de células-tronco pluripotentes, normalmente células-tronco pluripotentes induzidas (iPSCs). Já foi possível obter em laboratório, por exemplo, mini-rins capazes de filtrar o sangue, mini-fígados para testar a toxicidade de novos fármacos, enxertos de intestino, mini-cérebros para estudar a trajetória de neurônios durante o desenvolvimento, mini-cérebros com mielina, e até transplantar mini-cérebros para camundongos para permitir que eles amadurecessem mais. Alguns grupos de pesquisa tentam, também, acoplar diferentes mini-órgãos para testar novos fármacos simulando o metabolismo humano.

Existe algum consenso que não há dilemas éticos significativos aplicáveis às pesquisas no estágio em que estão no momento. No momento, os organoides gerados são ainda muito simples, não tendo função semelhante o suficiente à dos órgãos humanos para ser motivo de preocupação. O que aflige mesmo os pesquisadores e estudiosos de ética e regulamentação é o que está por vir.

Uma das preocupações é o bem-estar da “entidade” criada. Essa entidade pode ser o organoide que atinge um nível de maturidade suficiente para ter percepções como dor, no caso de mini-cérebros. É difícil lidar com essa questão porque, antes de mais nada, não sabemos como poderíamos identificar a dor nessas estruturas. Esses mini-cérebros poderiam, também, adquirir algum nível de consciência. Os pesquisadores concordam que esse ainda não é o caso, mas a ciência tem avançado rápido nessa área: recentemente foram produzidos organoides cerebrais complexos o suficiente para produzir espontaneamente sinais de eletroencefalograma (EEG) semelhantes aos de bebês prematuros.

Essa entidade pode ser uma quimera formada quando células ou organoides humanos são transplantados para um animal. Alguns estudos, de fato, já transplantaram mini-cérebros humanos em camundongos. Por enquanto, parece que isso não alterou de maneira significativa as funções cognitivas desses animais, mas pode haver um desenvolvimento futuro em que as percepções e funções cognitivas desses animais sejam alteradas de forma a ficarem mais parecidas com as humanas, com maior inteligência ou maior sensibilidade.

Por outro lado, realizamos, hoje, experimentos com animais que são inteligentes e certamente têm alguma forma de consciência, como polvos e porcos. Aparentemente, ser mais parecido com o humano altera a nossa percepção do status moral que a entidade tem. Essa é uma questão amplamente discutida entre os filósofos e ainda sem solução satisfatória: qual é o status moral que entidades criadas a partir do desenvolvimento de organoides cerebrais in vitro ou in vivo (transplantados para outros animais) devem ter? E por quê?

A pesquisa com organoides já é discutida do ponto de vista ético, mas ainda é muito pouco regulamentada. Ela deve avançar e tem o potencial de trazer muitos benefícios para o estudo de novos fármacos e de diferentes doenças, principalmente do sistema nervoso. Ainda temos alguns anos até que o desenvolvimento dessa linha de pesquisa atinja um estado em que provoque dilemas éticos mais urgentes e exija uma regulamentação específica. Mas tudo indica que isso não deve demorar muito. Estamos de olho.

Referências:
Nature News – Lab-grown ‘mini-brains’ produce electrical patterns that resemble those o premature babies.2018.

Göran Hermerén. Ethical considerations in chimera research. Development 2015.

Munsie M et al. Ethical issues in human organoid and gastruloid research. Development. 2017.

The Scientist – As Brain Organoids Mature, Ethical Questions Arise. 2018.

ABC News – These mice have brains that are part human. So are they mice, or men?2018.

Human Brain Organoids: The Science, the Ethics – Meeting organised by International Neuroethics Society and Welcome Centre for Ethics and Humanities at the University of Oxford. 2018.

Washington Post – Lab-grown brain bits open windows to the mind – and a maze of ethical dilemmas.

The Neuroethics Blog – The Stem Cell Debate: Is it Over?


Anterior: Pesquisa com células-tronco embrionárias: questões éticas